ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
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O tiroteio na Virginia Tech muda rumos da cobertura jornalística de grandes eventos na era da internet
Postado por Carlos Castilho em 30/4/2007 às 3:16:35 PM
 
 

O massacre da universidade Virginia Tech vai entrar para a história também um marco do fim da hegemonia da grande imprensa na cobertura de eventos que provocam grande comoção pública.

Passado o trauma maior, começam agora a surgir informações e análises mais detalhadas sobre como o público teve acesso às informações e como a imprensa ficou desorientada na cobertura jornalística.

Os observadores da imprensa norte-americana e os institutos de pesquisa do país acreditam que o grande diferencial da cobertura do massacre esteve no amplo e incrivelmente diversificado fluxo de informações criado pelos estudantes, professores, funcionários e pessoas comuns que estavam nas imediações da Virginia Tech quando aconteceu o tiroteio.

Usando câmeras digitais, laptops, telefones celulares, blogs, podcastas, videoblogs, chats e toda a parafernália contemporânea de comunicação, as testemunhas da tragédia começaram a divulgar informações mesmo antes do segundo e mais mortal tiroteio, quando a imprensa ainda não havia acordado para o fato.

Mais importante do que tudo, ao passar adiante informações sobre o que estava acontecendo na universidade, os informantes adotaram um estilo narrativo totalmente pessoal, tipo: Mamãe, eu estou vivo. Além disso foram raros os estudantes ou funcionários que se preocuparam em fornecer material para a imprensa. Eles correram primeiro para seus blogs e só depois pensaram nos jornais e TVs.

Outra evidência das profundas mudanças no comportamento do público em relação à coberturas de grandes eventos foi materializada na Wikipédia. A enciclopédia virtual, que hoje é também uma fonte de notícias sobre a atualidade, recebeu em média quatro visitas por segundo nos primeiros dois dias depois do massacre na Virginia Tech.

Quando os primeiros flashes ao vivo começaram a ser transmitidos pela TV norte-americana, o primeiro verbete sobre o tiroteio já estava sendo escrito por alguns dos quase 2.074 editores voluntários que participaram do maior mutirão jornalístico que se tem notícia na história da internet.

Enquanto tudo isto acontecia, admitiram alguns editores da CNN, a imprensa norte-americana não sabia que direção tomar porque os jornais e a TV tiveram que correr atrás dos blogueiros, testemunhas oculares, repórteres amadores com câmeras digitais etc. A notícia que antes era trazida pelos repórteres, fotógrafos e cinegrafistas profissionais, chegou às redações por outros canais, quase todos eles amadores.

A Wikipédia foi apenas uma amostra do emaranhado de fluxos informativos que se formaram autonomamente, sem controle centralizado, quase uma anarquia organizada. Houve um momento, no quarto dia depois da tragédia, que a enciclopédia virtual correu o risco de se transformar o seu material sobre a Virginia Tech num mega tributo às vítimas, tal o volume de informações que começaram a ser postadas sobre os mortos e feridos.

O público também adotou um comportamento inédito. Em vez de procurar as emissoras de TV e rádio, bem como os portais de jornais, houve uma corrida para os sites de noticias, weblogs, podcasts e vídeoblogs.

Para o professor da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque, Jeff Jarvis, a "Wikipédia foi apenas uma amostra do que aconteceu em toda a Web, em especial no segmento conhecido como jornalismo cidadão". Jarvis foi um dos primeiros a colocar na agenda jornalística a discussão sobre o que fazer daqui por diante.

Ele entrevistou blogueiros e a grande maioria deles admitiu que não deseja trabalhar para jornais e nem muito menos ser chamado de jornalista. Eles querem simplesmente ser linkados, ou seja, referidos como fontes de informações pelos jornais.

Isto levou a discussão para dentro das redações. Depois de ter perdido a corrida para os amadores em matéria de rapidez e diversidade informativa, os profissionais se deram conta que os amadores passaram a ser suas grandes fontes de notícias. A idéia que começa a circular em várias redações é a de que as reportagens terão que incluir necessariamente uma lista de links para blogs, sites pessoais, podcasts e vídeo blogs.

Outra discussão que também está ganhando corpo entre os jornalistas depois de Virginia Tech é a possibilidade de um jornal linkar um concorrente numa matéria de grande relevância. Em vez de mandar um repórter cobrir o que outro jornal já fez, a alternativa seria buscar outro ângulo ou investir noutro assunto para evitar duplicidade de esforços.

Isto evidentemente mexe com rotinas e valores muito entranhados no corporativismo das redações, mas alguns sinais de mudança já são perceptíveis. O jornal The New York Times foi criticado na Columbia Journalism Review por não ter dado crédito ou linkado o seu concorrente The Washington Post na cobertura do escândalo de maus tratos em hospitais militares de Washington a soldados feridos no Iraque.

Jeff Jarvis e a CJR acham que na época de redações mínimas, os jornais não podem mais se dar ao luxo de duplicar esforços nas grandes coberturas. As mudanças na arquitetura social da informação começam a se tornar cada vez mais claras e suas consequências dentro da imprensa passam a ser inevitáveis.

Comentários (5)
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Rodrigo  MAdeira Azambuja, advogado (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 2/5/2007 às 11:08:38 PM

Parabéns adorei o texto e sua analise. Me chamou a atenção para o impacto que essas tecnologias, podem causar nos meios de comunicação.
Rogério  Kreidlow, Jornalista (Brusque/SC)
Enviado em 2/5/2007 às 12:31:41 PM

Interessante a análise, Castilhos. Havia lido outras postagens, mas sem muito embasamento, que diziam que a cobertura por blogueiros, "cidadãos-repórteres" (estudantes, etc.) do caso de Virginia Tech havia ficado bem abaixo do que ocorrera durante o Tsunami ou mesmo na época do atentado ao World Trade Center - que meio que iniciou esta onda toda. Bom, teu texto é uma visão a mais. Eu, pelo menos, acompanhei as notícias mais pela mídia oficial (NYTimes, o próprio site da universidade, etc.) do que por blogs. A cobertura me pareceu boa - embora isto seja apenas a opinião de quem está bem longo daquele contexto e dos fato que ocorreram lá. O bom é que textos como o seu incrementam a discussão sobre os "rumos" (pensados ou inevitáveis) do Jornalismo daqui por diante. Abraço
Sergio  Denicoli, Jornalista (Braga/IN)
Enviado em 2/5/2007 às 12:11:35 PM

Excelente análise. Leitura indispensável. Abraço.
Isaias  Malta, WebEditor (Bento Gonçalves/RS)
Enviado em 1/5/2007 às 8:28:21 AM

Um artigo valioso sobre o momento histório que estamos vivendo, talvez marcando o fim da imprensa concebida como um bloco monolítico de produção. Mesmo que não queiram, os gadgets deram a qualquer um o poder de produção de informação. Oxalá que nós blogueiros e webmasters nos tornemos em númeor tão expressivo, que a velha imprensa tenha vergonha dos seus antigos hábitos de rapinagem. Um acontecimento internacional que tenha sido "furado" pela informação dos gadgets pode ter sido como foi a queda de Constantinopla para a Idade Média. Publiquei recentemente no meu Blog um post com o tema Virgia Tech, sob o ponto de vista da alienação social que chegou o sistema americano. O superindividualismo e a recusa a aceitar o diferente leva as pessoas a estados psicológicos limítrofes. As possíveis ações de um esquizofrênico são bem documentadas pela literatura médica, mas a falta de interesse pelo comportamento de um aluno no mínimo "excêntrico" é a grande doença no corpo social. Tal é tônica da abordagem no meu blog em http://pireu.blogspot.com/2007/04/o-massacre-em-virginia-tech-um-mal.html
Dalton  de Barros Santos, Educador (São Mateus do Sul/PR)
Enviado em 1/5/2007 às 4:34:40 AM

Castilho: Como pode perceber é como continuar o que comentei na Avalancha. A informática tirou o reporter oficial com equipe da rua. Por apresentar maioria tendenciosa nos últimos anos, a imprensa caiu no descrédito, e os amadores dos celulares passaram a confiar mais nos blogueiros, em sua maioria jornalistas desempregados, do que nos oficiais empregados. Como se o desempregado fosse uma espécie de solidário ao desemprego reinante. A recuperação da credibilidade será lenta, mas virá, desde os mais velhos voltem a atenção aos novos futuros jornalistas, que interpretam com reservas a escolha da profissão diante do descrédito que também os assola. A estes, bibliotecários do conhecimento circular da notícia, deverá ser passada a História franca da Imprensa, pois recuperam o crédito interior, adquirem ideal e abraçam a profissão com orgulho. Como educador, defendo a idéia da imprensa manter sua História sigilosa ao público, seria imprudente contá-la a uma gente com o nível educacional que estamos. Ja fomos melhores, mas a troca de mãos sofrida pela Educação, das minhas para as suas, foi um desastre para ambos. Você perdeu a credibilidade e eu perdí o motivo. Não se pode mais chorar sobre o leite derramado. Tem-se que providenciar nova e urgente ordenha para gue os bebês da imprensa possam mamar seguros o leite vindo de tetas confiáveis. Só depende dos bois mais velhos.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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